| Hipnose e Psicologia Clínica: Retomando a História Não Contada |
|
Resumo
O presente artigo aponta várias relações entre a psicologia clínica e a hipnose, destacando que boa parte destas
permaneceram e ainda se encontram pouco conhecidas da grande maioria dos psicólogos clínicos. Por um lado,
visa destacar acontecimentos históricos dessa relação que, apesar da pertinência, foram marginalizados e
esquecidos, o que remete, sobretudo, às práticas institucionais vigentes neste ramo da psicologia. Ao mesmo
tempo, o artigo busca destacar brevemente que a reflexão sobre a hipnose pode levar a psicologia clínica a
reformulações epistemológicas, institucionais e práticas da mais alta relevância, principalmente em termos de
colocá-la em sintonia com importantes discussões atuais do panorama científico. Por fim, ressalta que, pelas
próprias características da hipnose enquanto tema de reflexão e estudo, ela incita radicalmente a uma tomada de
rumo na direção da construção de um conhecimento onde seja possível o auto-conhecimento, rompendo com as
tradições modernas do pensamento científico.
Palavras-Chave: Hipnose; psicologia clínica; história; epistemologia.
A perspectiva de unificar clínica e ciência trouxe um pro-
blema considerável para a psicologia clínica: não seria possí-
vel efetivar um acesso privilegiado e único ao real, já que
esse ramo da psicologia se encontrava dividido em diversas
escolas. Como as exigências do paradigma dominante reza-
vam o acesso a uma realidade única (Demo, 1997; Morin,
1991; Santos, 1987) tal diversidade colocava a psicologia
clínica numa posição incômoda já que não havia meios que
pudessem garantir a hegemonia de uma escola sobre as ou-
tras. Não lhe havia sido possível a fabricação de um contexto
como o laboratório, em que os pareceres distintos e contrários
deveriam ser calados diante das provas experimentais
(Neubern, 2004; Stengers, 1995). Tal quadro trouxe uma
contradição incômoda, pois enquanto a psicologia clínica ga-
nhou espaços sociais e reconhecimento científico, ela jamais
pôde atingir, como não o puderam as ciências humanas e
sociais, o status da confiabilidade científica das ciências duras,
permanecendo a meio caminho de um reconhecimento inte-
gral (Neubern, 2003). As conseqüências desse mal estar
podem ser compreendidas sob duas dimensões altamente
integradas. Por um lado, as noções dominantes do projeto
científico foram adotadas de modo particular pelas diferen-
tes escolas, que lhe conferiram uma compreensão própria e
continuaram alimentando as rivalidades entre si. O
isomorfismo, a tendência universalista e a ênfase no patoló-
gico consistiram em noções constantes em praticamente todas
escolas de inspiração moderna (Gergen, 1996; Neubern, 2001).
Mas, ao mesmo tempo, como essa pretensão de acesso
isomórfico ao real mantinha-se questionável, a autoridade
dos mestres fundadores ganhou relevo cada vez maior, o
que conferiu grande influência à dimensão institucional.
É justamente nesse ponto que o tema da hipnose assume
uma considerável importância, pois toma para si um papel
de denúncia das contradições e fragilidades existentes na
tentativa de uma psicologia clínica enfim científica (Chertok & Stengers, 1999; Stengers, 2001). Associando-se a noções
epistemológicas marginais como a influência (ao invés da
neutralidade), o passageiro (ao invés do definitivo), a cria-
ção (ao invés do fato) e o ilusório (ao invés da essência), a
hipnose se tornou um objeto de estudo ameaçador capaz de
colocar em risco os já comprometidos alicerces que os psicó-
logos começavam a construir em sua pretensão de ciência.
Em termos de instituição e práticas sociais, essa denúncia
também mostrou que, sob bases precárias, muitos aconteci-
mentos históricos foram negados ou obscurecidos em nome
de um conhecimento científico que integralmente jamais foi atingido. Em outras palavras, em nome da própria razão
foi preciso que muitos argumentos fossem evitados, uma
vez que esses poderiam levar a incisivos questionamentos
sobre a coerência dessa mesma razão.
Sendo assim, o objetivo deste artigo é, de início, o de
destacar criticamente alguns acontecimentos históricos li-
gados à relação entre hipnose e psicologia clínica que pode-
riam levar a reflexões pertinentes sobre essa ciência, mas
que foram estigmatizados ou jogados ao esquecimento. Tra-
tam-se especificamente de obras e concepções de certos au-
tores (Bernheim, 1891/1995; Bertrand, 1823 citado em
Carroy, 1991; Delboeuf, 1890/1993) que, apesar da rele-
vância clínica e teórica, não ganharam espaço e reconheci-
mento históricos, como não puderam impedir a construção
dos mais diversos preconceitos sobre o tema. Uma vez que
levanta essa dimensão esquecida, o artigo também buscará
destacar brevemente a pertinência da hipnose como um tema
que poderá trazer para a psicologia clínica reformulações
fundamentais em termos de práticas institucionais e princí-
pios epistemológicos. Nesse sentido, as reflexões levanta-
das pela hipnose não só colocam a psicologia clínica em
sintonia com as discussões recentes sobre crises de
paradigmas na ciência (Demo, 1997; Morin, 1991; Santos,
1987, 2000; Stengers, 1995), como ressaltam que sua rele-
vância como tema de estudo é bastante atual (Borc-Jacobsen & Dufresne, 2001; Chertok & Stengers, 1999; Melchior
1998; Neubern, 2004; Stengers, 2001; Zeig, 1985/1997).
Deve-se fazer aqui uma pequena ressalva em função da
ênfase conferida à psicanálise de Freud (Salomão, 1996),
como uma das principais origens da psicologia clínica.
Embora seja possível conceber outras origens dessa disci-
plina, como Witmer (Schultz & Schultz, 1969/1981) e
Lagache (Levy, 1997), preferiu-se manter a psicanálise como
um dos focos centrais da reflexão devido à sua relação histó-
rica com a hipnose e sua influência ainda bastante presente,
difundida e atual em diversos contextos e instituições da
prática clínica de diferentes escolas. |